24 maio 2011

Sob a luz do luar


_Você já dançou com o demônio sob a luz do luar? - perguntou o Coringa (o do Jack Nicholson) ao Batman, no filme de 1989.

_ Não (e nem quero). Mas já dancei com um anjo em uma noite de lua cheia.

30 julho 2010

Uma nova mulher

“Felizmente não era alzheimer” - diziam os amigos e ele concordava, maneando a cabeça de maneira afirmativa, mas no seu íntimo quase desejava que fosse. Talvez assim ele sofresse menos.

O que o incomodava era não reconhecer mais a própria esposa. Não era um caso de reconhecimento facial, uma amnésia, mal de alzheimer... Era algo que não tinha nome, nem explicação racional.

Tudo começou quando ela deixara de comparecer ao tradicional almoço de Páscoa na casa dos pais dele. Dias depois, ligou dizendo que chegaria mais tarde porque tinha que refazer um relatório gerencial pois o total não tinha fechado, coisa e tal. E deixou de atender alguns telefonemas dele no horário de expediente.

Claro que passou pela cabeça o medo da traição. Tentou assistir TV, mas seus olhos fixos no eletrodoméstico mostravam sua ausência. Pensou em mil possibilidades mas não fazia sentido ser traído: eram felizes em todos os sentidos, tinham uma boa situação financeira (que lhes permitia viajar de tempos em tempos), estavam sexualmente satisfeitos, mantinham a paixão acesa... E, se nada disso bastasse, eram religiosos e - pelo menos a princípio - respeitavam o mandamento de não trair.

Algum tempo passou e as coisas pareciam voltar ao normal. Um dia ele notou que ela tinha um novo aparelho celular, na verdade um smartphone. Logo ela, que não era fã de coisas hi-tech e cujos celulares tinham parcos recursos e raramente iam além do FM, MP3 e joguinho.

O pior de tudo nem foi o celular novo (isso ele até achou bom), mas o fato de ter comprado e não ter contado, compartilhado. Fingiu não notar no primeiro dia, mas terminou perguntando:

_ Celular novo?

_ É. O outro estava começando a dar problema.

_ Comprou quando?

_ Faz uns dias...

A resposta imprecisa o deixou pior do que antes. Antes achava que ela não queria contar sobre o celular, agora tinha certeza disso! A coisa piorou mais ainda quando ele descobriu que ela tinha Twitter. Não era nada escondido, já que usava o próprio nome e sobrenome. E não escrevia nada.

Mas pra que ter Twitter e não usar? Ele tinha e nunca fizera segredo disso, tinha dado o endereço a ela. Ou não? Provavelmente tinha. Certamente! E ela tinha um Twitter e não escrevia nada???!!! Só se fosse pra trocar DMs, as mensagens privativas...

Pensou em olhar cada seguidor dela e cada pessoa que ela seguia, buscando algum que parecesse suspeito. Não daria trabalho, não chegavam nem a cinquenta pessoas... Mas desistiu. Não queria desconfiar da esposa.

Algumas semanas depois quis deixar um recado no Orkut da esposa e não encontrou. Ela apagou o perfil? Procurou e terminou encontrando a página dela, sem foto e com o nome “Fechada para balanço”! E sem os depoimentos dele... Pelo menos ela deixara o estado civil inalterado. Mas o que estava acontecendo com a sua esposa?

Passou semanas tentando descobrir, sentindo cada palavra e observando cada movimento. Pensou em fazer uma planilha medindo quantos abraços, beijos e “eu te amo” ouvia, mas achou isso muito alienista, muito machadiano. E, sobretudo, muito doentio.

Continuavam aparentemente felizes em todos os sentidos, a situação financeira até melhorara, estavam planejando uma viagem a Los Angeles, continuavam satisfeitos sexualmente e a paixão continuava acesa... E ainda iam à Igreja toda semana e comungavam, o que significava - pelo menos a princípio - que ela ainda era fiel.

Certo dia não aguentou mais, perguntou a ela o que estava acontecendo. Ela disse que nada estava acontecendo, ele citou as mudanças e estranhezas. Ela disse que era bobagem, que o amava muito, que ele deixasse de caraminholas, que era sua e de mais ninguém, que pensava nele as 24 horas do dia, que falava nele pra todo mundo, que no celular... Ops! Smartphone dela só tinha fotos dele, só tinha mensagens dele e tudo o mais...

Depois começou a chorar, dizer que ele podia perguntar para a mãe dela ou ligar pra colega de trabalho, que elas iam confirmar que ela era apaixonada por ele, que não tinha olhos para mais ninguém, que o amor dele era mais do que suficiente para a felicidade completa dela.

E era verdade tudo isso o que ela dissera. Mas ela havia mudado e isso o incomodava cada dia mais. Ele tinha certeza de que não havia mudado, os amigos diziam isso e até mesmo ela confirmava que ele era o mesmo homem que um dia a pedira em namoro.

Não havia casado com ela, não com essa mulher. Algum extraterrestre a havia abduzido e tomado seu lugar. Ele não reconhecia mais a esposa (infelizmente não era alzheimer, ele pensava), não era a mulher com quem se casara, disso tinha certeza.

A mulher que ele tomou no altar era atenciosa, carinhosa e caseira. A que estava morando com ele nunca percebia se ele estava triste ou só cansado, não assistia mais TV de mãos dadas e vivia no shopping com amigas. Até no sexo mudara: agora ela, após o êxtase, virava de lado, dando as costas pra ele e dormia.

Era uma nova mulher.

E a cada dia que passava ele ficava mais determinado a abandonar essa estranha e sair pela porta à procura da mulher que conhecia, com quem namorou e casou.

12 julho 2010

A Copa do Mundo é nossa?

Nem bem acabei de escrever o texto sobre o logotipo da Copa 2014 no Brasil e me dou conta que o pior nem é o logotipo. É que a gente pode até passar a vergonha de ter a Copa retirada daqui.

(Pensando bem, com o logotipo que temos, o melhor mesmo seria adiar nosso sonho pro dia em que a gente aprendesse a dar valor aos que merecem. Esses logotipos e outro tipos que têm 95% de popularidade muitas vezes não possuem nem 1% de qualidade).

Veja a notícia publicada hoje da Agência Estado (com grifos meus pra leitura dinâmica de vocês):

Fifa alerta que falta tudo ao Brasil para Copa de 2014

Entidade deixou claro que passará a pressionar o País para que erros do Mundial da África não se repitam - 12/07/2010
Jamil Chade - Enviado Especial - O Estado de S. Paulo

Três anos depois de dar a Copa de 2014 ao Brasil, a Fifa alerta que falta tudo ainda no País para organizar o Mundial em quatro anos. A entidade deixou claro que, com o fim da Copa de 2010, passará a pressionar o Brasil para acelerar as obras para o Mundial. Muitas das promessas sequer saíram ainda do papel, para o desespero da Fifa.

Ontem, questionado se existiam problemas do Brasil para a Copa, o secretário-geral da Fifa, Jerome Valcke, admitiu que sim. “Temos alguns problemas sim”, disse. A lista do cartola, na realidade, é longa e complexa. “Precisamos construir estádios, estradas, o sistema de telecomunicações, aeroportos e ver se há mesmo a capacidade suficiente em hotéis”, disse Valcke.

Em resumo, o recado da entidade é de que nada está em dia. Não há nem uma definição de onde ocorrerão os jogos de abertura e semifinais, como será a infra-estrutura, quais aeroportos serão usados e nem sobre garantias financeiras. Um membro do Comitê Executivo da Fifa admitiu ao Estado que, se o Brasil não tivesse concorrido sozinho para sediar a Copa, não teria levado diante da falta de planejamento.

Para a Copa de 2018 e 2022, há na Fifa quem tenha a sensação de que os candidatos estão mais preparados que o Brasil. Nos bastidores, o Brasil vem sendo considerado pela Fifa como um país tão problemático ou até pior que a África do Sul para a realização da Copa. Antes do início do Mundial, o presidente da entidade, Joseph Blatter, chegou a apontar que “o Brasil não era um paraíso”, em um sinal de insatisfação com a forma de lidar com a Copa pelos cartolas e governos.

Em maio, Valcke já havia alertado que os trabalhos no Brasil estavam “impressionantemente atrasados”. Sua avaliação é de que o atraso chegava a dois anos. Na quinta-feira, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, garantiu que essa não era mais a situação do Brasil e que as obras estavam já em andamento. Mas alertou para a situação dos aeroportos.

Na sexta-feira, foi a vez do presidente Luiz Inácio Lula da Silva atacar quem duvidasse do Brasil. Para ele, era “descabido” questionar se o Brasil estaria pronto para a Copa, garantindo que investimentos seriam feitos e que não faltaria aeroportos. Lula chegou a se irritar com o questionamento. “Se o Brasil não tiver condições, garanto que volto da África à nado”, disse.

Valcke, que terá de tomar decisões sobre estádios e sobre o formato da competição no Brasil, admite que o trabalho não será pequeno. “Vamos trabalhar em todos esses assuntos”, garantiu. O A Fifa havia prometido que falaria de 2014 após o final da Copa de 2010. Mas, ontem, um dia após a final da Copa, o sentimento ainda era de que não se deveria tratar do assunto diante do grande número de polêmicas. A Fifa estava decidida a não permitir que jornalistas brasileiros tomassem a conferência para falar de 2014. Vários jornalistas do País que pediram a palavra simplesmente não foram atendidos.

Blatter admitiu que fará uma visita até o final do ano ao Brasil, antes do fim do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Mas a relação entre a Fifa, CBF e o governo não é das melhores. Lula desistiu de assistir a final da Copa, o que foi considerado como um ato de menosprezo à entidade que levará o Mundial ao Brasil em 2014.

Tradicionalmente, o presidente do próximo país sede é o convidado de honra da final da Copa. Ontem, na sala vip do estádio, o lugar de Lula ficou vazio.
Resumindo: o presidente bravateiro certamente teria que voltar nadando, mas isso é só mais uma bravata dele. Na hora de prometer, o PT é muito bom. Já na hora de realizar... Pense nisso quando for votar.

Logotipos da Copa

Ecos de rock nacional na minha cabeça juntam no mesmo palco Ultraje A Rigor e Legião Urbana, mais precisamente os versos “a gente não sabemos (sic) escolher presidente” com “que país é esse?”

O nosso logotipo da copa é o pior logotipo de evento esportivo que já vi na vida. Nem um torneio de par ou ímpar de bairro tem um logotipo tão primário! É antiestético de tão torto e é antiético (quem disse que já podemos colocar a mão na taça?). E que combinação é essa de verde, amarelo e... vermelho???? Custou quanto aos cofres públicos (leia-se “ao nosso bolso”) essa porcaria?

Me recuso a colocar uma figura dele aqui. Não quero poluir visualmente o blog.

Esse logotipo ao lado é muito melhor! Foi feito por dois concludentes de curso de Desenho Industrial, a Karina Campanha e o Cairê Uchôa.

Eles criaram também toda uma identidade visual para o produto: folder, identidades, ingressos, CDs, envelopes, tudo isso acompanhado de um manual de aplicação.

Eu fiquei sabendo da história pelo Chocola Design. Em seguida, visitei o Flickr da Ká, que tem uma apresentação do projeto e ainda uma vinheta muito bonita.

Por mim, preferia que o novo presidente revogasse o concurso ridículo que escolheu a ridícula logomarca, obrigando o vencedor a devolver o prêmio aos cofres públicos, fazendo um novo concurso.

Ou, se isso não der certo, que todo mundo se recusasse a fabricar e a usar aquele ridículo logotipo torto e feio e usasse esse da Ká e do Cairê. Eu acho este muito melhor!

30 junho 2010

Um domingo qualquer

Não andavam muito bem. As discussões eram frequentes e a mágoa transbordava entre os dias. Reflexo da estafa no trabalho de ambos, pensavam. E assim desculpavam a si e ao outro.

A vida os mudara. Estavam juntos há longos 9 anos, os dois últimos mais longos que os sete primeiros.

Começaram a namorar ainda na época do segundo grau, cursado em colégio de freiras que não permitiam mãos dadas no recreio nem abraços enquanto vestissem o uniforme, ainda que fora das dependências da escola.

Fizeram faculdade em cidades diferentes, gastando as economias dos estágios e “bicos” em xérox de livros e passagens de ônibus, mas se viam pelo menos uma vez por mês. Haviam jurado fidelidade no calor da aprovação no vestibular e mantiveram a promessa. Ou assim me contam, e me dou por satisfeito com a palavra de um e de outro.

Formaram-se quase no mesmo dia. Ele no dia 22 de setembro, ela no dia 24. Havia um equinócio entre as graduações, era primavera e tudo eram flores. Voltaram à cidade natal e mataram a saudade. Não desgrudaram uma hora sequer nos 47 dias que se seguiram, mas no 48º dia discutiram.

Uma besteira, uma bobagem, um trocinho insignificante... Ele convergiu à esquerda sem acionar a sinaleira, ou ela jogou o papel do chocolate no chão, ou algo do mesmo tipo, categoria e tamanho. Motivo ridículo, ambos admitem. Após 7 anos se conhecendo, se estranharam.

Nos dias seguintes, foram se redescobrindo. Na verdade, descobrindo o quanto cada um havia mudado nos 5 anos de faculdade, quantos defeitos novos haviam surgido e quantas qualidades haviam ficado pelo caminho.

Meses se passaram e o carinho não era o mesmo. O beijo quase escondido na época de colégio e ansiado na época de faculdade agora era quase temido. Porque você pode fingir as palavras, mas é muito difícil mentir um beijo. (Tem quem seja profissional nas duas coisas e em todas as demais formas de mentira, mas não era o caso deles).

Ambos se magoavam com a frieza que se instalara e que os dois fingiam não sentir. Havia a esperança (vã) de voltarem ao que era, como se fosse possível reverter o tempo, anular a distância e recompor cristais uma vez quebrados. Havia ainda a autopiedade que os impedia de jogar fora os 7 belos anos (e, assim, jogavam fora não só os sete que já haviam ido pro brejo como os dias que se passavam e se transformavam em nove).

E principalmente havia a teimosia e o orgulho que impede a pessoa de admitir que errou, de jogar o projeto no lixo e começar em uma nova folha em branco, ainda que o prazo esteja acabando (o que não é o caso, pois nos assuntos sentimentais só é tarde pra recomeçar se a pessoa acreditar que é).

Adivinhando subconscientemente todos os dias um fim que nunca vinha, ela o escondia de seus colegas de trabalho, pois não queria “ser queimada na firma”, seja lá o que quer que isso signifique. Poucos sabiam que ela tinha namorado e quase todos poderiam passar por ele na porta do edifício sem saber de quem se tratava. Pra sem mais exato, dos 28 funcionários da firma, só dois sabiam que ele era namorado dela. Contando com ela!

Por três vezes ele foi buscá-la, querendo fazer surpresa e ela mentiu, afirmando que não estava mais na firma, que havia saído mais cedo e ido de ônibus (dor de cabeça, consulta médica e prova na especialização foram as desculpas) para não ter que abraçá-lo na recepção da empresa. Ou pior, para não ter que recusá-lo na recepção da empresa.

Num domingo qualquer, ele foi entregar uma maquete para uma nova cliente. Domingo? Ela estranhou sem motivo. Ele era assim, meio workaholic quando se empolgava com uma encomenda. Na verdade, se empolgara tanto que era pra entregar no sábado, mas quis dar os retoques finais com perfeccionismo e ligou pra cliente perguntando se poderia entregar no dia seguinte.

No domingo, ela foi junto com ele. Ao chegar na casa, ele estacionou o carro e ela avisou “espero aqui”. Ele não insistiu, pois sabia que a cliente não estava em casa, que entregaria a maquete para a empregada, caso contrário teria insistido para que ela descesse, pois sabia (no íntimo sabia) o que era ser “ocultado” da vida profissional da pessoa amada.

(Sim, eles ainda se amavam, embora fosse mais pelo que um dia foram do que pelo que eram naquele momento)

Ele entrou, colocou a maquete com cuidado em cima da mesa de jantar, agradeceu a empregada e saiu. Ela, enciumada, imaginou mil coisas nos pouco mais de meio minuto que ele estivera longe dos seus olhos, mas nunca perguntou o que aconteceu dentro da casa, embora quisesse muito saber.

E ele nunca disse, embora soubesse que ela queria saber mais do que tudo no mundo.

09 junho 2010

Um dia qualquer

No mesmo dia em que colocou o retrato do cônjuge na parede, este pediu o divórcio.

A vida não é irônica?

24 maio 2010

Instantâneo



O fim de semana é sempre curto para os que amam.



24 novembro 2009

Lula sempre foi a maior ameaça à democracia na America Latina

Estava navegando e me deparei com a seguinte frase, no blog do Coronel:
“Lula superou Chávez e transformou-se na pior ameaça à democracia no continente.” (aqui)
Engano...

Lula sempre foi a maior ameaça à democracia na América Latina.


Simples assim...

Lula é o presidente do maior país do subcontinente, seja em área, poder militar, população ou pujança econômica! Se a ditadura bolivariana não avançou aqui o tanto que avançou na Venezuela, no Equador, no Paraguai etc. é porque AINDA não pôde.

Mas à medida em que os abusos ditatoriais nos demais países vão nos tornando insensíveis (anestesiados), a ditadura vai avançando aqui também. Coisas que nos pareciam abomináveis há 7 anos já nos parecem normais ou “quase normais”.

(Ou a população se indignou com a censura do Sarney ao Estadão? Ou do José Riva contra os blogues de Mato Grosso? Cadê os protestos de “ABAIXO A CENSURA”, que foram ouvidos mesmo durante a tão mal falada ditadura militar?)


Não vamos nos esquecer que todas que cercam o nosso presidente lutaram contra a democracia (sim, começaram antes de 1964!) para implantar uma ditadura comunista e não me recordo que algum deles, unzinho sequer, tenha manifestado arrependimento pelo passado terrorista ou demonstrado conversão às idéias democráticas.

Lula dá apoio à ditadura bolivariana no subcontinente (e a qualquer ditadura no mundo, mas aí é texto pra outro post) e em breve estas lhe darão apoio pra implantar a ditadura aqui.

Será que ninguém mais percebeu isso ainda?

21 julho 2009

Amigo ponto com

Para meus amigos reais, onde quer que estejam (São Paulo, Teresina, Taiwan, etc.): Feliz Dia do Amigo!
O que é um amigo à distância? É um amigo pior? Uma amizade menor? Permita-me perguntar de outra forma: o que é um amigo distante? Ficou mais difícil de responder, não é?

Você já esteve ao lado de um amigo de longa data que não prestava atenção no que você estava falando? Que não notou que você estava triste, chateado ou melancólico? O que você pensou? Aposto que foi “poxa, como o Fulano tá distante hoje”.

Se você consegue caracterizar como “distante” uma pessoa que está ao seu lado, por que não pode dizer que tem um amigo próximo que mora longe? Um grande amigo que mora do outro lado do mundo?

O DDD, o fax e, mais recentemente e de forma muito mais poderosa, a internet acabaram com qualquer distinção de distância. As empresas trocaram grandes escritórios por serviço feito em casa e enviado por email. As reuniões de gerentes regionais já não exigem deslocamentos aéreos - basta uma conexão rápida e um programa de teleconferência. Por que as relações afetivas iam ficar imunes a isso?

Antigamente era mais difícil que amigos que morassem longe fossem “próximos”. As cartas demoravam dias ou semanas para chegar e as notícias envelheciam antes de serem contadas. Em uma noite de desespero, de extrema tristeza, de que adiantava escrever uma carta para colocar no nos correios no dia seguinte e esperar uma semana pela resposta? Até lá a felicidade haveria de chegar. Ela ou o suicídio.

Ainda assim, grandes amizades se faziam ou se mantinham. Entre familiares, entre escritores, entre políticos. A tecnologia das comunicações subverteu o conceito de distância. Se há 30 anos uma ligação de Fortaleza a São Paulo demorava umas 3 horas, hoje eu ligo se quiser pro Japão por DDI. Ou por VOIP, que é melhor ainda. Sabendo o número (e russo), converso com a Estação Orbital Mir.

Se estou triste, ligo pra qualquer cidade do Brasil onde tenho amigos. Se espirro no Twitter, logo recebo uma dica de xarope por Direct Message. Converso sobre política no MSN e sobre relações humanas no GTalk.

Converso mais com pessoas a milhas de distância do que com meu vizinho, cujo nome, a propósito, não sei. Não são amigos virtuais e reais. Todos são reais. Alguns são “digitais” ou “eletrônicos” e outros são “convencionais”. Mal comparando, é como se fossem as cartas e os e-mails.

Só quem não percebeu que houve essa revolução das comunicações pode menosprezar o valor de uma amizade simplesmente porque as pessoas estão fisicamente distantes.

E quem não entende isso está mal preparado para o futuro.

07 julho 2009

Inflacionando as estatísticas sensoriais

Há na imprensa politicamente correta uma tendência a mascarar a nossa percepção dos fatos de forma a inflacionar a defesa da “causa”.

De vez em quando encontro, nos jornais, manchetes que chamam a atenção para vítimas de preconceitos. Uma hora é um homossexual, na outra um sem-terra, amanhã o que será? Uma releitura um pouco mais apurada da notícia, usando um mínimo de senso crítico, nos mostra que não é bem assim.

O professor universitário homossexual foi morto ao reagir a um assalto. O criminoso não perguntou suas preferências sexuais e só então atirou. O professor saía da aula às 10 horas da noite e havia deixado o seu carro em um local escuro, afastado da faculdade. (Na época achei que a notícia era um fato isolado, não uma tendência, e não guardei o link.) A manchete deveria ser “Professor universitário é morto em assalto” ou “Professor reage e morre em assalto” mas era algo como “Professor homossexual é assassinado brutalmente”.

Agora a manchete me chama a atenção: Cinco integrantes do MST são mortos em Pernambuco. No final da notícia, o próprio coordenador estadual do MST, Jaime Amorim, diz “não acreditar em motivações agrárias para o crime, já que o assentamento é consolidado e não apresenta registro de conflitos.”

Então por que a manchete não é “Cinco agricultores são mortos em Pernambuco”? Seria bem mais sensacionalista! Imediatamente o leitor imaginaria velhinhos com pele morena do sol e enrugada, com mãos calejadas, placidamente cavando a terra com suas enxadas. Teria curiosidade de ler para saber o que motivou alguém a matar os seus imaginados velhinhos.

Da forma como a manchete está, o leitor talvez nem leia a notícia pois, saturado de invasões de terra e conflitos pela (pretensa) reforma agrária, deduz (errado, neste caso) o resto da história. Então não se justifica pelo ponto de vista do sensacionalismo e da necessidade de atrair leitores.

Informação de verdade também não é, pois coloca no topo da página, com letras garrafais, um dado totalmente desconectado da notícia. Serem do MST, para o ocorrido, é tão importante quanto serem pernambucanos, terem o CPF com dígitos 83 ou possuírem celulares chineses. Talvez este último exemplo fosse até mais relevante, caso se provasse que são contrabandistas foragidos que não pagaram o tributo à máfia japonesa.

Então, se não é informação nem sensacionalismo, o que motiva o editor a colocar a sigla “MST” na manchete? Só posso crer que seja a tentativa de inflacionar as estatisticas sensoriais do leitor, ou seja, de provocar no leitor a simpatia pela causa dos sem-terras. Quanto mais manchetes tiverem mortes de integrantes do movimento, mais parecerá ao leitor desinformado e acrítico que a categoria é vítima da violência, que é injustiçada e perseguida.

Assim, não bastam os cadáveres das invasões criminosas provocadas pelo MST. O movimento se apropria até dos cadáveres que não lhe pertencem. Não bastam as verdadeiras vítimas de preconceitos, é preciso aumentar o número.

PS: Eu sei que falando coisas assim não me torno uma pessoa politicamente correta. Mas serei politicamente incorreta sempre que o “politicamente correto” for logicamente incorreto. Não tento justificar movimentos skinheads, acho que todo preconceito é condenável, ainda mais se passar das palavras às ações. Mas dai a César (só) o que é de César!

11 junho 2009

Feliz dia dos namorados, querido político

Abaixo transcrevo trechos da matéria “Dia dos Namorados: tributos podem representar até 78% do valor do presente” (link aqui), da InfoMoney e Portal MSN Brasil e comento em seguida.

A lista dos presentes mais cotados para o Dia dos Namorados faz a alegria do Leão. Isso porque, na hora de comprá-los, os apaixonados esquecem que em um simples buquê de flores ou mesmo nos tradicionais bombons há incidência de tributos.

Um perfume importado, por exemplo, carrega 78,43% de tributos. Considerando a média de preço de R$ 150, cerca de R$ 117 são destinados à carga tributária.

Já quem quiser presentear com um perfume nacional terá de arcar com 69,13% de tributos.Dependendo do produto escolhido, a carga tributária pode ser maior ou menor. Um aparelho de MP3, por exemplo, tem 49,45% de impostos embutidos, contra 17,71% das flores e 15,52% dos livros.
Em seguida mostra a tabela elaborada pelo IBPT (Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário) com o percentual de impostos em vários produtos.

Naquele almoço ou jantar romântico, amigo leitor, você vai deixar quase 1/3 do que pedir para o leão. Se antes disso tiverem assistido a um cineminha, 30% do filme foi pros impostos. E não adianta tentar escapar. Se preferir um programa mais intimista, como um DVD acompanhado de um bom vinho, saiba que mais que a metade da garrafa será bebida pelo leão.

Em relação a outros presentes, escolha a mordida:
  • Artigos de vestuário tem mordidas variando de 34% a quase 60% (quando o Leão morde uma calça comprida, ela vira um shortinho bem escandaloso).
  • CDs e DVDs são cerca de 40% imposto (ou você achava que o único extra era o making of?).
  • Jóias são absurdamente taxadas: metade do que você paga é imposto! (Um brinco pra ela, outro pro leão).
  • Nos perfumes nacionais e importados, de 70% a 78% é o bafo do Leão!
  • Bombons e chocolates são 38% impostos e o resto é cacau. O mesmo percentual se aplica aos cartões.
E agora veja pra onde vão os impostos... Segurança pública? Saúde? Habitação? Basta olhar em volta pra ver que a maior parte deles passa longe da sua destinação.

Nosso dinheiro está pagando as viagens dos congressistas, a manicure e o batom da ministra da Casa Civil (e candidata do PT à presidência), os jantares dos ministros, os saques em dinheiro do cartão corporativo do Executivo, o nepotismo dissimulado dos senadores, os incontáveis auxílios que duplicam os já altos salários dos legisladores... (Assim é nos Poderes Executivo e Legislativo da nação, dos estados e dos municípios).

Então, “meu querido político”, a quem involuntariamente vou dar a maior parte do presente amanhã, peço desculpas por não chamar-te para estar fisicamente no nosso jantar romântico nem para convidar-te para assistir o filme conosco e tampouco dar-te bombons na boca ou beijinhos carinhosos.

É que apesar de dar-te mais que o dobro do que darei à pessoa a quem quero bem, esta me faz feliz enquanto Vossa Senhoria, “meu querido político”, me dá enjôo. Enquanto meu amor quer me ver sempre feliz e bem sucedido, Vossa Senhoria, “meu querido político”, quer tirar até minha última gota de sangue. A forma como Vossa Senhoria trata a coisa pública me dá nojo!

Então, “meu querido político”, eu não quero sua presença amanhã, no Dia dos Namorados. A propósito, queria que Vossa Senhoria sumisse amanhã para sempre!

Nada pessoal! Por favor, entenda...

27 maio 2009

A Genealogia do Brasil, por Emplastro Cubas

Achei o texto a seguir no Emplastro Cubas. Recomendo a leitura principalmente do texto abaixo e de “A Fantástica História do País B.” – partes I e II. Mas não leia somente estes, pois o blog inteiro é muito bom!

A Genealogia do Brasil

Voltando na linha do tempo, sempre é possível buscar a gênese de uma nação em um evento histórico de grande importância. Este evento invariavelmente caracteriza-se por um momento de superação, o salto de uma fase menor para uma fase de grandeur. É uma oportunidade para a nação se livrar de resquícios indesejados do passado para entrar numa nova era. Os Estados Unidos nasceram da proclamação da independência e da subsequente sangrenta guerra contra a poderosa Inglaterra; esta surgiu de fato na Revolução Gloriosa de 1666, a primeira revolução burguesa da História. Do outro lado da Mancha, a República Francesa foi fundada na Revolução Francesa, mas já é possível traçar sua concepção desde Carlos Magno. A Confederação Helvética teria surgido na revolução inflamada por William Tell; A Argentina teve San Martin, e, nessa lógica, é possível mencionar mais dezenas de países.

O Brasil é um caso a parte. O Descobrimento do Brasil em 1500 não é sua gênese; passaram-se 30 anos até que alguém deu alguma atenção ao lugar. O verdadeiro evento que levou a criação da nação brasileira é a Fuga da Família Real. A Independência não mudou nada, ao contrário da Fuga da Família Real, que obrigou os portugueses a vir para cá, na marra. Não fosse a chegada de Dom João em terras tupiniquins, não haveria a Independência mais fácil da História, 14 anos depois, nem as principais estruturas que originaram nosso país. A propósito, quando da sua independência, o Brasil foi o único país americano a tornar-se monarquia, e tanto no surgimento da Independência quanto no da República foi disparado um tiro sequer. Foram ambos eventos de coaptação, de criação de cargos públicos, de manutenção em forma de mudança. Aparentemente, em 1822 já existiam partidários do PMDB.

Enquanto a genealogia das nações é feita de lendas, atos heróicos, tratados diplomáticos, sublevação dos oprimidos, guerras internas, externas, partidárias e religiosas, a do Brasil pode ser resumida num ato, o da fuga – que não é a coisa mais dignificante a se fazer. Lembro de uma professora de História, ainda no colégio, orgulhosamente contando como nós, brasileiros (esqueceu-se ela que Dom João era português) havíamos habilmente conseguido enganar Napoleão ao fugir das tropas francesas. Como se correr apavorado como se não houvesse amanhã, deixando tudo para trás, fosse enganar alguém. Quem não podia pagar a viagem, ficou. Vieram só os cooptados pelo sistema português. Que belo método de seleção natural ao inverso criou Napoleão, inadvertidamente.

A lista de países e reinos que se engajaram militarmente contra le petit corporal apenas deixa essa façanha lusitana ainda mais humilhante: Espanha, Inglaterra, Itália, Sicília, Áustria, Rússia, Prússia, Saxônia, Reino Unido da Holanda, Piemonte e Hanover, para não mencionar a poderosíssima Brunswick, que se eu tivesse encontrado no google, saberia que tem um povo tão feroz que fez Napoleão dormir na pia, ou pelo menos é isso que gosto de pensar. A Suécia abandonou a neutralidade e mandou vir. Até o Vaticano lutou contra a França napoleônica, e isso deve ter sido engraçado.

Foi esse pessoal valente e cheio de vontade de vencer que aportou no Rio de Janeiro para fundar a nação brasileira. Então não sejamos muito exigentes com nossos políticos, pessoal. Não dá para esperar grande coisa.
Achei interessante a professora contar a fuga como vantagem. Eu também já passei por isso. Os professores contavam a história do Brasil cheios de ufanismo e eu me envergonhava dela (salvo em raríssimos momentos).

Sempre achei a nossa história meio “banana”, apalermada, bocó: desde a descoberta “por acaso” (para evitar calmarias na costa africana? Faça-me o favor!) até os dias de hoje, a história do Brasil é uma grande mentira. Você duvida? Oficialmente, fomos descobertos por “barbeiragem” de quem se desvia um oceano inteiro, nossa independência foi proclamada pelo príncipe herdeiro da metrópole e nossa república, pelo guarda-costas da família real. Os exemplos se seguem até chegar aos dias de hoje, ao PT, ao Lula, aos partidos de oposição que a nada se opõem... Resumindo, tudo neste país é um faz de conta para iludir o povo.

Muitas vezes o teatro é tão mal feito que dá pra perceber a falsidade, mas “ai, que preguiça!”, como diz Macunaíma. E deixa assim mesmo. Nunca tivemos essa gênese que nos desse o sentimento de ser nação: ou a gênese foi a fuga, que não nos faz nação de verdade, ou a gênese não houve e ainda está no futuro. E, sem esse sentimento de sermos o mesmo povo, vamos tentando viver, uns mamando nas tetas dos bancos estatais, outros nos bolsas-mizérias e no meio disso a classe média ocupada demais na sua vida pra fazer alguma diferença, todos apaticamente esperando o dia em que poderemos fugir de volta. Continuamos esperando as caravelas. Não nos sentimos parte deste país, nos dividimos entre exploradores e expectadores. Uns roubam e outros assistem.

PS: Quando falo em nacionalismo, não falo naquele usado como refúgio de canalhas, no nacionalismo que tenta justificar a xenofobia, nem naquele apelidado de soberania nacional em nome da qual os governantes abraçam terroristas e dão pitaco na justiça de outros países. Eu me refiro ao sentimento de pertencer a uma terra e a um povo.

23 maio 2009

Educação infantil e (falta de) caráter do brasileiro

Quando vejo uma criança querendo fazer algo que não pode, quase sempre o adulto que o acompanha se sai com uma destas frases:
_ Não faz que o homem briga!
_ Se fizer, vai ficar doente!
_ Faça e eu te boto de castigo!

Fico me perguntando onde foram parar (se é que já existiram) o “porque não pode” e o “porque é errado”. Fiquei pensando nesse traço da educação infantil e na forma como ele se manifesta no adulto (e como isso ajuda a explicar o Brasil).

Aprendemos desde criança que algo pode ser feito, seja certo ou errado, desde que
  • Nenhum policial, fiscal ou outra autoridade esteja presente (o “homem que briga” não esteja por perto);
  • Não traga prejuízos a si (não “fique doente”); e
  • Haja uma forma de evitar a punição, por influência, propina ou recursos judiciais (escapando do “castigo”).

Não sei como é que as mães americanas, européias e japonesas educam os filhos. Nem tampouco como é no Haiti, Senegal e Congo. (A ajuda de leitores seria bem vinda). Talvez em alguns países as mães dêem as mesmas desculpas e prometam o mesmo castigo, mas quando ficam mais velhos, os filhos recebam a noção de certo e errado. Pode ser que em outros países as mães ensinem desde cedo que não se deve fazer porque é errado, pura e simplesmente. Mesmo que não haja homem pra brigar ou risco de adoecer. E com castigo se fizer, não como ameaça (geralmente não cumprida), mas como corretivo.

Também não quero ensinar como educar os filhos. Cada qual que cuide dos seus. Me preocupo é com essas crianças crescidas sem valores, pessoas que passam no vermelho quando não tem foto-sensor, que estacionam em local proibido quando não tem guarda, que pagam propina ao fiscal pra liberar a mercadoria, que viajam com a família às custas do contribuinte porque não era proibido (e precisa proibir o imoral?), que pintam e bordam porque o irmão é amigo do presidente e depois manda arquivar, etc.

O fato de não ser punida não torna a transgressão um acerto, não ser pego não moraliza a imoralidade, ninguém ver o crime que você fez não te torna honesto. O Direito - e a condenação, prisão, multa, etc. - não é a única forma de julgamento. Antes dele há o caráter, a moral, a ética, os costumes, os preceitos religiosos e a desaprovação social. Infelizmente todos estes são fracos no Brasil.

Depois de muito me perguntar quando foi que o brasileiro perdeu as noções de caráter, começo a perceber que ele talvez nunca as tenha desenvolvido.

20 maio 2009

Epifania

Ontem saí com um grupo de amigos e foi muito divertido. A grande e grata surpresa foi a presença de um grande amigo nosso que passou por maus bocados ano passado, inclusive com início de depressão. Ontem se mostrou outra pessoa.

Não estava somente melhor do que antes da depressão, mas melhor do que quando o conheci. Era outra pessoa! Muito mais seguro de si, demonstrando isso pela conversa e nos relatos de atitudes no novo emprego e no novo namoro.

Quando comentaram que ele parecia bem melhor, ele afirmou que realmente se achava mais maduro. Aí alguém na roda comentou: “Graças à Fulana!”. A Fulana, no caso, era a ex-esposa.

Graças à ela? Como assim? Ela não conversou com ele. Ela não o levou ao médico. Não o apoiou. Não fez nada para ajudar. Simplesmente o abandonou (da pior forma possível) assim que a dificuldade bateu.

(Quando ele perdeu o emprego, ela começou a tratá-lo como incapaz e incompetente. Pra piorar, um acidente de carro o deixou de cama por duas semanas e neste período ela foi vista saindo com um “amigo”. Ou dois.)

A desilusão amorosa e a dificuldade financeira causaram o início de depressão e a busca por ajuda com amigos, às vezes na religião e até na bebida. No meio de alguma conversa, oração ou porre ele teve uma epifania, um insight e pode ver tudo claramente (como Neo vendo as letrinhas escorrendo, no final do primeiro Matrix).

De quem é o mérito? Dela? Isso seria supor que ela o teria humilhado, abandonado e traído para lhe dar um “tratamento de choque”, o que não é verdade. A intenção jamais foi essa.

Sabendo o que ele havia passado, tive vontade de dizer “graças a ela o #$%¨*&*#!”, mas ele, mais educado, sorriu e disse apenas:

_ Quer dizer que graças a Hitler, temos Guernica? - e mudou de assunto.

06 abril 2009

Noite longa

Cada vez que espanto o vagalume, reaparece um velho fantasma.

Enquanto persigo a luzinha que pisca no ar, pareço hipnotizada e nada mais consigo ver. É uma luz fraca, incapaz de iluminar meu quarto, muito menos de aquecer meu inverno.

Mas enquanto ela pisca, o velho fantasma não tem poder algum sobre mim. Assim que espanto o inseto pra fora da janela, o vulto reaparece a me assombrar e imploro pela volta do vagalume.

Se eu acendesse a luz, tudo estaria resolvido. (Mas eu não consigo achar o interruptor.)

21 março 2009

Mar agitado

Algumas histórias morrem na praia.

Essa sua inconstância, com constantes sumiços e reaparecimentos, me confunde. Num dia me liga, no outro não me atende. Um dia me chama no msn, no outro não responde. Deve ter lido meu e-mail, mas nunca respondeu: um desencontro?

Não entendo, não sei o que está havendo. Faço teorias, algumas bem plausíveis, mas não quero acreditar. Principalmente porque a maioria delas vai contra tudo o que eu conheço de você e tudo o que me dizem.

Poderíamos viver uma bela história juntos, mas (salvo alguma reviravolta) nosso barco naufragou antes que viessem as tempestades. Na verdade, antes até de sair do ancoradouro.

Algumas histórias começam promissoras e terminam de forma frustrante.

Poema que morre na praia
(escrito em 24 de julho de 1999)

Poema que morre na praia é assim:
Tem um ótimo começo
E um péssimo fim.

Meus amores morrem na praia.

11 março 2009

De súbito

Às vezes acontecem coisas inexplicáveis de uma hora para outra. E nos perguntamos o porquê.

Primeiro é bom lembrar que as coisas inexplicáveis acontecem mesmo de repente. É exatamente por acontecerem subitamente que se tornam ainda mais inexplicáveis.

Você está lá, certo de que vai acontecer algo e... Não acontece! (Ou o contrário, que é pior: acontece o que você não esperava). A empresa que ia te contratar contratou outro. A pessoa com quem você ia pro cinema vai ver o filme com outra. O seu filho mais calmo brigou na escola. Pá! Puf!

Acho que parte das pessoas não pensa muito nisso. Balança a cabeça e parte pra outra. Eu não. Eu me pergunto os motivos. Não sei se isso foi um hábito adquirido por causa da minha formação acadêmica ou se por já ser assim desde a infância terminei escolhendo uma carreira ligada às exatas.

Os números não traem. Dois e dois sempre serão quatro. A derivada de x ao quadrado é o dobro de x. O quadrado da hipotenusa é... Você entendeu. Os números não decepcionam.

As pessoas sim. Uma sequencia numérica dá pra saber pra onde vai. Uma sequencia de encontros pode desandar de uma hora pra outra. (Na verdade às vezes há “outra força atuando na estrutura”, mas você não sabe. Só que também pode não ter força oculta alguma e acontecer.)

As coisas não precisam de porquês. Alguns fatos acontecerão sem justificativas e sem explicações. Não perca tempo procurando os motivos. Não perca o sono buscando explicações. Faça racionalmente o que outros fazem por instinto: balance a cabeça e continue sua vida.

03 março 2009

Exílio

para Aridni Aruom, a partir de um haikai de Milford Maia
Um exílio me impõem
e outro exílio procuro
Necessário é o encontro
seja de trabalho, de outrem
ou de mim mesmo.

Navego mares antes navegados
e oceanos nos quais naufraguei.
Que surpresas me reservam os ventos
desta vez?

Exilado, me perco
Exilado, me acho
Exilado, me encontro
(eu acho)

08 fevereiro 2009

Uma a mais

_ Alô...
_ Oiê, tudo bom?
_ Tá...
_ Nossa! O que houve?
_ Tô chateada com uma coisa.
_ O que foi que aconteceu?
_ Meu notebook pifou... Comprei pra ter um computador em casa (você sabe que estou morando um tempo fora), comprei um modem 3G, instalei os programas, até placa de TV tinha. Primeiro a internet nem sempre funcionava, mas ainda dava pra escrever, jogar, ver filmes e ouvir música. Agora a tela nem acende mais. Investi tanto e agora isso...
_ Fica assim não. Você investiu tanto em tanta coisa que não deu certo... Uma a mais, uma a menos não vai fazer diferença, né?
_ É...

(longo silêncio)

_ Xiii... Ajudei muito não, né?
_ Foi...
_ Pois depois a gente se fala.

30 janeiro 2009

Mea Culpa

Às vezes falo demais.
E muitas vezes insisto num assunto...
(É irônico, pois não gosto desse defeito nos outros)

Tenho muitos outros defeitos (e qualidades, claro)
mas hoje foram esses que me deixaram triste.