23 dezembro 2006

O “Se...” do canalha nacional (texto de Arnaldo Jabor)

SE PUDERES MANTER a cabeça erguida, quando todos te acusarem, chamando-te de “ladrão” ou “corrupto” por te terem pegado com a mão dentro da cumbuca,

se mantiveres a aparente dignidade, mesmo diante de provas inabaláveis do teu crime e disseres com voz calma e serena: “Tudo isso é uma infâmia sórdida de meus inimigos”, ou ainda: “Não me lembro se esta loura de coxas douradas foi minha secretária ou não...”,

se disseres isso sem suar, sem desmanchar a gravata, com roupas impecáveis que não revelem o esterco que te vai dentro d’alma, se fores capaz de chorar diante de uma CPI, ostentando arrependimento profundo, usando de tudo, filhos, pais, pátria, tudo para te livrar... e, sobretudo, se puderes construir uma ideologia que te justifique e absolva, de modo que os atos mais sujos ganhem uma luz de beleza e coragem, se puderes dourar tua pílula, colorir teus crimes, musicar teus grunhidos, de modo que possas mentir com fé, trair sem remorsos e roubar com júbilo,

se puderes crer, por exemplo, que tens direito de roubar o povo para vingar uma infância pobre, ou de que roubas por teres sido injustiçado por pai severo ou porque tua mãe foi lavadeira e prostituta para pagar teu diploma fajuto de business administration, se acreditares mesmo que tens direito de superfaturar remédios de criancinhas com câncer porque também sofreste como menino comido por garotão mais forte no porão da tua infância (dor e delícia sempre negadas por teu machismo compensatório),

se, no fundo do coração, achas que roubar o Estado ou os estados ou as prefeituras ou os camelôs ou os lixeiros ou os mendigos é, portanto, uma causa nobre e um ato quase revolucionário, que a mutreta, a maracutaia, a “mão grande”, o “apaga-a-luz” o “me dá o meu aí” têm algo de transgressão pós-moderna, algo de Robin Hood para si mesmo, como dizes, soltando a piada “ah-ah, roubo dos ricos para o pobre aqui... ah-ah”,

ou se, por mais político ou ideológico, disseres a ti mesmo que roubas porque, “neste fim de século, a globalização da economia e o imperialismo nos assaltam” e que tu tascas antes deles, num ato nacionalista tipo “antes eu do que eles”,

ou se te orgulhares de ter instaurado a gorjeta, a mixaria, o serviço de 25% (pois, como dissestes, “10% é para garçom”) enquanto enfias a língua na orelha da lobista gostosa ao teu lado no Piantella, de porre e feliz,

ou se justificares tua fortuna escrota por motivos mais científicos, invocando Darwin ou Spencer, declarando que o animal humano sobrevive pela agressão e competição (survival for the fittest) e que, portanto, assim como o chimpanzé ataca o mico leão ou como o jacaré come o veado ou como a fêmea do louva-a-deus o devora como uma Nicéa enlouquecida ou como a formiga escraviza pulgões e rouba-lhes o leitinho, também cumpres a ordem natural das coisas, concluindo com erudição: “Roubo sim, pois isso está inscrito no genoma dos hominídeos há 50 milhões de anos”,

ou ainda se, mais metafísico ou filosófico, contemplares o crepúsculo e lamentares melancolicamente que “acabou o tempo das utopias...” ou “a vida é uma ilusão dos sentidos” e, portanto, “roubo sim e caguei...”,

ou ainda se, num gesto de infinita superioridade existencial ou literária, invocando Villon ou Jean Genet, assumires tua fisionomia de rato ou de preá, tua carinha embochechada por anos de uisquinhos, licores, pudins, babaganuches, se te orgulhares de tua esperteza e, de cuecas diante do espelho, enquanto a amante se lava no banheiro, berrares com júbilo: “Eta garoto bão, espertalhaço!”, ou seja, se diante de si e do mundo, puderes enfunar a barrigona cheia de merda e dizer: “Sou ladrão sim, mas quem não é?” ou “Podem me acusar, mas quem tem este Renoir?”,

se puderes cultivar todos esses méritos, se puderes justificar com serenidade tua vida de estelionatos, pequenos furtos, orelhas de traficantes ou até mesmo de esquartejamentos com motosserras (“Esquartejo sim, mas por bom motivo...”), se puderes fazer tudo isso, confiante nos teus advogados sempre alertas como escoteiros na pilhagem nacional, confiante na absoluta conivência de rituais jurídicos que sempre te livrarão da cadeia, enquanto os pardos pobres apodrecem nas celas com aids e “quentinhas” superfaturadas,

e se, além da confiança na cega Justiça, dos desembargadores que sempre te acolherão, se, além desse remanso, desse consolo que te encoraja, roubares mesmo, no duro, por amor à causa, por paixão, por desejo sexual, pelo bruto tesão de acumular o máximo de dólares para nada, pela fome de lanchas, jatos, putas, coberturas, Miami, Paris, e se, com fé e coragem, reconheceres esse prazer com orgulho e sem remorsos, então, eu te direi, com certeza, que vais herdar a terra toda com todos os dinheiros públicos dentro e, mais que isso, eu te direi que serás, sim, impune para sempre, um extraordinário canalha, meu filho, um verdadeiro, um grandioso filho-da-puta brasileiro!

Um comentário:

Rudyard Kipling disse...

Se (texto de Rudyard Kipling, no qual Arnaldo Jabor claramente se inspirou)

Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,
de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!