30 junho 2008

O Paraíso É Uma Questão Pessoal

(texto de Richard Bach, autor também de “Fernão Capelo Gaivota” e outros ótimos livros)

Sempre achei os pilotos de aviões de carreira os aviadores mais profissionais do mundo - estivessem eles a caminho da sua aeronave, atravessando a pista de concreto com as sacolas de avião na mão ou no comando de um quadrimotor a caminho dos quinze mil metros. E “mais profissionais” quer dizer mais bem pagos e melhores. Eu nunca poderia pensar em me tornar o melhor piloto do mundo se não pilotasse um avião de carreira e, além disso, o dinheiro. É um quadro lógico, que sempre atraiu muita gente.

Após ter relutado durante anos quanto ao que eu temia fosse apenas um exercício de direção de ônibus aéreo, chato como quê, decidi que talvez eu tivesse um preconceito estranho contra as companhias aéreas. Se realmente sou um piloto fora de série, com excelentes conhecimentos de vôo e de céu, pensei, o único lugar adequado para mim é a bordo de algum Boeing e, quanto mais cedo, melhor. Dirigi-me imediatamente à United Air Lines. Dei-lhes todas as minhas listas de tempo de vôo, números de certificados e tipos de aviões por mim pilotados tudo isso com plena confiança porque sei que, se há algo que eu sou capaz de fazer, é pilotar um avião. Planejava comprar o Beech Staggerwing e o Spitfire e o Midget Mustang e o planador Libelle o mais rápido possível, com o meu ordenado de comandante de avião comercial.

Os exames para o cargo incluíram um que testava a minha personalidade.

Responda sim ou não, por favor: Existe apenas um Deus verdadeiro?

Sim ou não: Os detalhes são muito importantes?

Sim ou não: Sempre se deve dizer a verdade?

Sim ou não. Humm. Meditei um bocado para responder a esse teste. E fracassei.

Um amigo, piloto da United, riu quando eu lhe contei o que tinha acontecido.

- Dick, para fazer esse teste, a gente primeiro faz um curso! A gente se matricula numa escola, paga cem dólares e eles lhe dizem quais são as respostas que as companhias querem, você dá as respostas certas e é contratado. Não vai me dizer que respondeu às perguntas da sua cabeça, vai? Certo ou errado: “O azul é mais bonito do que o vermelho?” - Você respondeu a isso sozinho?

Resolvi, então, achar uma maneira de driblar esse teste. Não havia a menor dúvida de que eu seria um magnifico comandante de avião comercial, mas o teste era uma pedra no meu caminho. Contudo, antes de pagar os cem dólares, achei por bem indagar sobre a vida de um piloto de companhia aérea.

Vidinha nada má. Depois de um ou dois anos, a gente até se sente culpado de levar para casa um cheque daquele tamanho por fazer uma coisa que pode ser considerada como um divertimento. Naturalmente, a pessoa precisa corresponder. Os sapatos precisam estar bem engraxados, a gravata com o nó bem dado. É preciso, claro, seguir todos os regulamentos, pertencer ao sindicato, andar de cabelo bem aparado e não é aconselhável sugerir melhorias técnicas a pilotos empregados há mais tempo.

A lista continuava mas, por essa altura, comecei a sentir estranhas hesitações no fundo do meu ser. Afinal de contas, eu podia ser o maior aviador da companhia, podia pilotar com absoluta precisão, esforçar-me por melhorar sempre Mas, se o meu cabelo não estivesse cortado segundo o modelo indicado, eu não seria o homem perfeito para ocupar o cargo. E, se eu me recusasse a entrar para o sindicato, por estranho que pareça, não seria um bom funcionário. E, se me lembrasse de dizer a um comandante como é que ele deveria voar. . .

Quanto mais o meu eu interior falava, mais eu achava que a United fizera bem em me reprovar. Não basta dominar os controles, o leme, instrumentos e sistemas. Eu nunca seria um bom piloto comercial e, rebelde por natureza às normas de todas as companhias, provavelmente seria um horrível piloto de carteira.

As grandes companhias de aviação sempre tinham sido uma espécie de nebuloso Walhalla para mim, uma terra que sempre necessitaria de pilotos, que sempre pagaria aquele cheque de ouro em troca de algumas horas mensais pilotando um transporte a jato elegantemente equipado e perfeitamente conservado. Agora, o meu pequeno paraíso fora por água abaixo. Eles não são os melhores, afinal. São apenas pilotos de companhia.

E assim voltei para o meu pequeno biplano e troquei o óleo e liguei o motor e rolei pela pista, colarinho desabotoado, sapatos cambados, cabelos que não viam tesoura havia duas semanas. E lá em cima, empoleirado na beira de uma nuvem de verão, olhando, da minha carlinga, por sobre uma paisagem verde-paz, toda brilhante de sol e lavada pelo céu ilimitado, tive de admitir que, se não podia ter um paraíso de piloto comercial, aquele ali serviria, até que algo melhor aparecesse.

Um comentário:

MilfordMaia disse...

E eu pergunto, onde está a essência das artes e dos ofícios neste mundo dito moderno?

Talvez perdida em trajes, gestos e rituais desnecessários?

Ou quem sabe na própria necessidade de auto-afirmação dos 'catedráticos' de cada área do conhecimento?

São formulários, testes e provas, que nada formam, testam ou provam. Meros instrumentos de exclusão, de isolamento, de medo.

Abaixo à insegurança, à incerteza, à ignorância!

Pois é na simplicidade, no essencial e na verdade que reside a beleza de tudo o que há.

Forte abraço! Visite o blog aqui ou acolá!